quarta-feira, 21 de julho de 2010

Itaim Bibi usa bandeira contra falta de memória

Quem frequenta o Itaim Bibi dos grandes prédios espelhados e restaurantes chiques não conhece o mesmo bairro de Helcias Bernardo de Pádua. No lugar de grandes avenidas e edifícios, sua memória guarda casas de taipa de pilão, riachos, sobrados de estilo português e árvores centenárias. E, para resgatar essa história, ele luta para que empresas e escolas do bairro adotem o símbolo dessa mudança entre passado e presente: a bandeira do distrito do Itaim-Bibi.

Pádua é fundador e presidente da Associação Grupo Memórias do Itaim, que reúne aficionados pela história de um bairro que quase ninguém sabe como era 40 anos atrás. Eles realizam encontros frequentes para discutir o tema e sabem a história do distrito detalhe por detalhe desde o início do século passado, quando o local ainda era uma área alagadiça e rural. “O Itaim era bairro de gente pobre, que só vinha para cá porque não tinha escolha. Meu pai, por exemplo, era ascensorista e minha mãe era costureira. E escolheram aqui porque não tinham lugar melhor para ir”, conta Pádua.

A partir da década de 1970, no entanto, as coisas começaram a mudar. Córregos e rios foram canalizados, avenidas construídas e, graças à proximidade da Avenida Paulista, o centro empresarial de São Paulo na época, o Itaim começou a atrair grandes empresas e moradores de classe alta. “Foi nessa época que começou a demolição dos casarões antigos. A maioria já não existe mais. Até hoje recebo propostas pela casa onde moro, mas ainda resistimos”, diz a escritora Nereide Schilaro, que também participa do grupo de memórias.

Símbolo. Na visão de quem conhece a história do bairro, essa transformação está bem resumida na bandeira da foto que ilustra esta reportagem. O azul representa o traçado tortuoso do Rio Pinheiros antes da canalização, que diminuiu as enchentes no bairro. O verde, a mata que existia no local antes da ocupação, iniciada há mais de cem anos. E a parte branca central, além de representar a paz, mostra os prédios que foram erguidos no bairro, tomando o lugar do verde e retificando o rio que passava ali. Uma história que, entretanto, pouca gente conhece.

É por isso mesmo que os integrantes do Memórias do Itaim começaram uma campanha para popularizar a flâmula, criada em 1990 por um estudante de 11 anos num concurso entre escolas da região. O primeiro passo foi fazer com que a bandeira fosse oficializada. O projeto foi aprovado pela Câmara Municipal no fim do ano passado.

Agora, o grupo trabalha dia e noite para popularizar o símbolo. “Conseguimos um patrocínio de uma empresa e imprimimos 5.500 cartões postais, fizemos camisas e bandeiras para distribuir”, afirma Pádua. O objetivo é que comerciantes, empresas e escolas públicas do Itaim comecem a hastear a bandeira em seus prédios. “Primeiro, porque é civismo; depois, porque é uma demonstração de apreço pelo ambiente.”

Sentimento. Para levar o plano adiante, o Memórias do Itaim já contactou diretores e empresários para tentar convencê-los a adotar a bandeira. Fez ligações, mandou cartas, enviou e-mails e até conseguiu algumas promessas verbais. No entanto, o único prédio onde a flâmula está hasteada atualmente ainda é o de um centro comercial na Rua Joaquim Floriano – onde ficava a antiga fábrica de chocolates Kopenhagen, fundada no bairro em 1928 e responsável pelo concurso que elegeu o desenho da bandeira em 1990.

Apesar disso, o grupo não pensa em desistir. “Com a bandeira, talvez as pessoas percebam que ainda há quem tenha amor pelo Itaim. O resgate histórico humaniza o bairro. E é desse sentimento que o Itaim Bibi de hoje precisa”, diz Nereide.

Fonte: O Estado de S. Paulo

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